O mercado low-cost de smartphones

Todos ligados

por Carlos Mota

O meu primeiro telemóvel foi um Nokia 3310, ainda me lembro de como fiquei encantado quando o recebi. Na altura era o topo de gama, para além de permitir telefonar e mandar mensagens sem ter de me deslocar a uma cabine telefónica, tinha ainda dois míticos jogos - o Snake e o Space Impact - que me entretiveram horas a fio. Os anos passaram e aquele incrível tanque de guerra foi substituído por outras versões mais recentes, o telemóvel deixou de ser só para comunicar e importamos o estrangeirismo “smartphone” para nos referirmos aos atuais Androids e iPhones.

As marcas foram lançando modelos cada vez com mais funcionalidades, o que fez acompanhar o preço, e o telemóvel, perdão, “smartphone”, que nunca teve um preço simpático, acompanhou este crescimento. Passamos muito rapidamente para os preços proibitivos de 600€ e os 1200€ nas marcas mais conhecidas. Nos últimos anos e face às vendas não estarem a subir ao ritmo que até então estavam habituados, alguns vendedores decidiram apostar em modelos mais acessíveis, que em vez de custarem quatro dígitos, rondam os 400€.

Num país onde o ordenado mínimo é pouco mais que 600€ não é sequer possível sonhar em utilizar metade do ordenado num “smartphone”. E apesar do nosso valor não ser alto, se passarmos para outros locais onde este é ainda mais baixo ou inexistente, torna-se impossível em comprar um telemóvel.

Felizmente, a Google e alguns vendedores têm unido esforços e desenvolvido quer versões mais leves do Android, quer equipamentos que chegam a custar 18€. São “smartphones” simples, não têm 5 câmaras mas sim uma, não têm NFC mas têm WiFi, não têm ecrãs de Super Retina XDR mas sim um com que é possível ver o conteúdo e interagir, por outras palavras, tem o que realmente precisamos.

Com isto, passa a ser possível chegar a mais países e pessoas e dar-lhes várias oportunidades:

  1. Falar com familiares e amigos Utilizando o lema que a Nokia popularizou nos seus telemóveis - é a possibilidade de estarmos todos ligados, à distância de um número.

  2. Acesso à internet e a mais informação Ainda que as áreas de acesso à internet sejam reduzidas, agora as pessoas têm a possibilidade de utilizar um telemóvel como se fosse um computador pessoal. E o acesso que atualmente damos como garantido como o email, à web, etc. passa a estar disponível a todos. E já se têm vindo a observar vários resultados positivos nesta área. Em várias cidades o número de pessoas doentes diminuiu por terem acesso a mais informação e melhorarem as suas condições de higiene. Em outros locais, foram desenvolvidos projetos com o objetivo de melhorar sistemas de rega, de plantações, levando a uma produção de alimentos mais sustentável.

  3. Deixar de depender de serviços externos Um dos exemplos de maior sucesso que temos vindo a observar acontece em África, onde as pessoas dependem cada vez menos de serviços intermediários, nomeadamente de agentes financeiros locais. Estas lojas funcionam como ponte entre os bancos e as pessoas, muitas vezes de uma forma não oficial. Isto traduz-se na aplicação de elevadas taxas de levantamento/ transferência de dinheiro. Assim, o pouco que têm, reduz-se a quase nada, com os roubos e a corrupção local, que em muitos locais ainda está presente. Para solucionar este problema, vários operadores móveis lançaram serviços que permitem aos seus utilizadores fazerem transferências a partir de uma SMS, sem precisarem de um intermediário, o que para além de ter tornado todas as interações muito mais seguras, reduz o intermediário e consequentemente as taxas, deixando mais dinheiro para quem precisa.

Estes três pontos representam muito e são só o início.