Os últimos 6 meses em retroespectiva

O (velho) normal

por Filipe Mendes

É sexta-feira de manhã e o tempo em Londres é frio e chuvoso. Ao deslocar-me ao supermercado, noto o movimento das ruas e as luzes do metro, despertando a energia que tanto me trouxe até cá. Ao mesmo tempo, reparo nos estudantes cabisbaixos com mochilas e capas para a chuva em direção à escola e sinto-me feliz por já não ter de passar pelo mesmo.

Este momento fez-me pensar na sorte de poder trabalhar remotamente. O facto de ficar em casa durante este temporal em conjunção com a calma, o silêncio e o poder trabalhar sem ser interrompido, são benefícios que eu valorizo mais do que eu pensava. Mais, a possibilidade de viajar para Portugal e permanecer perto da família por períodos mais alargados, não tem preço.

Sendo o tipo de pessoa que observa em demasia, dou por mim a aperceber-me não só o quanto me distraiam as conversas paralelas de um espaço aberto, mas especialmente, os comportamentos e interacções entre colegas que ocupam posições hierárquicas diferentes.

Como resultado, tenho vindo a notar que sorrio mais, que me sinto mais calmo e que me tenho tornado mais compreensivo em reuniões de trabalho, quando a situação assim o exige. Portanto, não é de espantar que como tantos outros, eu não tenha vontade de voltar ao escritório.

Tendo como base este sentimento geral, bastantes empresas têm vindo a reduzir os seus escritórios apesar de a maioria ainda não planear o fecho permanente das suas instalações. Curiosamente e em contra-ciclo, têm surgido relatos de grandes empresas que tentam convencer os seus colaboradores através de mais benefícios, como o pagamento de transporte, a regressarem ao (velho) normal.

Passados 6 meses, mesmo após comprovada a viabilidade do teletrabalho, é ainda difícil de acreditar numa adopção permanente em larga escala mas estou confiante que caminhamos a passos largos para uma solução híbrida, com cerca de 70% do trabalho a ser desempenhado por casa. Resta saber se os primeiros dados e relatórios sobre o impacto a nível individual (solidão, alimentação, etc.) não abrandará esta transição.