Trabalho remoto / Teletrabalho

A Miragem do tempo livre

por Carlos Mota

Com o aparecimento do Covid-19, tudo o que dávamos como garantido passou a ter um ponto de interrogação. A possibilidade de circularmos livremente, de uma ida ao cinema, de cumprimentarmos os nossos amigos e entes queridos - tudo passou a ter um período de 15 dias de quarentena e muito do que até ao momento fazíamos teve de ser adiado indefinidamente de forma a minimizar o risco de um possível contágio.

Este confinamento, leva a que muitos de nós, de forma relativa, acreditem que passamos a ter mais tempo livre. Não, o dia não passou a ter mais horas. Continuamos com 24 horas diárias, apenas passamos a fazer tudo a partir de casa. Por isso poupamos as horas das idas para o trabalho, dos passeios aos fins de semana, das idas ao ginásio, de todas as actividades que gostávamos e que tiveram de ser adiadas. Ao fazermos estas contas, sem contar com mais nada - podemos efectivamente acreditar que é possível fazer mais do que anteriormente fazíamos. E as nossas redes sociais estão cheias destes exemplos - pessoas que encontraram forma de, durante esta quarentena, aprenderem a cozinhar, fazer exercício físico, etc. os exemplos são muitos aqui. E é incrível o que muitos conseguem. Algumas pessoas tenham a capacidade de se abstrair de todo o caos que existe à nossa volta e consigam aprender algo novo. Isto é excelente, mas não é para todos.

Não há mal nenhum em ficar no sofá a ver uma série na tv, a ler um livro, de não aprender a pintar ou a fazer uma nova receita,… Toda esta pressão que se gera a partir das redes sociais e a de nós termos de aproveitar qualquer situação para fazermos mais e sermos melhores não é para todas as pessoas. Nem todos reagem da mesma forma, nem todos têm o mesmo tempo livre. É importante relembrar que muitos têm filhos pequenos e têm de fazer uma ginástica incrível para os acompanhar e ao mesmo tempo não deixar o teletrabalho para trás, ao estarmos todos os dias em casa é preciso arrumar, limpar e cozinhar mais vezes. É importante relembrar que outros têm mães, avós que têm de cuidar. Não somos todos iguais, cada um enfrenta o que está a acontecer à sua maneira e reage como sabe dando o seu melhor - e não há mal nenhum nisso.

Carlos Mota, há 51 dias em quarentena.