Esquemas de redução de trabalho

Layoffs - solução ou problema?

por João Alves

Layoffs e outros programas de redução de horas nunca foram tão falados como durante esta crise do Covid-19. Programas de governo com medidas destas como base e com comparticipação de custos, com certeza ajudaram a essa proliferação. Estes apoios contribuíram para tornar estes mecanismos mais atrativos para qualquer empresa. Ao mesmo tempo, algo que seria visto como negativo passou a ser visto com outros olhos neste contexto. Tornou-se num mecanismo de apoio para que as pessoas possam manter o seu emprego após a crise.

Entendo e acredito que várias empresas tenham sofrido bastante com esta crise. Pergunto-me no entanto se poderiam seguir um caminho diferente. É assustador perceber como tantas empresas eram geridas até aqui. Várias recorreram a estes mecanismos ainda numa fase inicial. Sem grande contexto ou dados suficientes sobre a crise e possível impacto da mesma. Seria interessante perceber a forma como gerem as suas contas. E mais importante seria perceber qual o valor que dão aos seus funcionários em comparação.

Na área das Tecnologias de Informação, a competição por talento é constante. A oferta de talento não é suficiente para os níveis de procura e a constante rotação existente. Os salários são também por norma mais elevados. E havendo ainda oportunidades disponíveis, estes programas tornam-se antes convites a uma saída.

Após esta crise e o regresso à nova (a)normalidade que vamos viver, essa competição por talento será ainda mais feroz. Os investimentos e a necessidade de produzir rápido vão regressar. As empresas que agora perderem talento vão enfrentar outras dificuldades. Há vários exemplos de empresas com capacidade a investir bastante em contratações. A pool de talento vai ser mais curta. As pessoas vão avaliar e julgar as opções tomadas durante esta crise. A escolha entre uma empresa que imediatamente avançou para layoffs e outra com uma postura mais moderada será fácil. Essa será talvez uma das melhores perguntas a fazer durante uma entrevista de emprego.

Em conclusão, entendo e aceito que empresas usem mecanismos de layoff como sobrevivência. Acredito que as que possam deviam investir em talento e não o contrário. Curioso pelo futuro.

Oferta maior que a procura

por Filipe Mendes

A crise iniciada pelo coronavirus em todo o mundo, forçou governos a adoptarem medidas de apoio financeiro às empresas que tenham encerrado ou colocado em suspenso parte das suas actividades devido ao estado de emergência.

Com a criação de medidas de forma apressada, dado que as circunstancias assim o exigiam, não demorou muito até aparecem relatos de empresas IT em Portugal a tentarem aproveitar-se de um apoio estatal para suportar os seus custos fixos, ao declarar o layoff dos seus colaboradores mas exigindo que continuassem a trabalhar.

Por outro lado, em Inglaterra existem alguns casos de empresas a colocar de forma rotativa os seus empregados em furlough (equivalente a layoff em Portugal) por períodos de três semanas. Esta solução, em teoria, permite manter os colaboradores e reduzir os custos de forma significativa durante este período mas na prática também serve para verificar se as empresas se conseguem adaptar com menos pessoal.

Mas mais preocupante são os casos das multinacionais. Com uma mistura de furlough e redundâncias, a Deliveroo ja dispensou mais de 400 trabalhadores, a Airbnb fez o mesmo a 1/4 do seu staff (1900 pessoas) e o Uber, segundo as últimas notícias, vai chegar a um total de 6700 colaboradores.

Estes números revelam a dependência financeira a capitais de risco que já à muito se sabe. Em alguns destes casos, é inegável que a crise tenha causado grandes danos financeiros, mas não terá também servido como justificação para um plano de redução pós-blitzscaling?

Estas mudanças repentinas transformaram a realidade do mercado de IT como nunca se tinha visto até aqui. Pela primeira vez, milhares de empresas suspenderam os seus planos de recrutamento, à excepção das gigantes da tecnologia, e dezenas de milhares de profissionais estão agora à procura de uma nova oportunidade.

Esta nova realidade leva-me a crer que num futuro próximo, ocorra uma queda nos salários dos profissionais de IT devido ao aumento da oferta e à redução abrupta na procura. E o impacto do tele-trabalho? Tudo dependerá de quanto tempo durar a crise mas o tele-trabalho só irá ajudar a acelerar esse processo já em andamento.