O lançamento do Falcon 9

Não te esqueças de ler as instruções

por Carlos Mota

Há 50 anos atrás o mundo abrandava. As pessoas largavam o que estavam a fazer para ficarem coladas aos rádios e televisões e presenciarem um acontecimento único na História. Num daqueles momentos em que a ficção científica colide com a realidade abandonando o imaginário e transformando-se numa vivida memória - o Homem caminha sob a lua. E o nosso planeta azul ganha uma nova dimensão, por momentos, todos colocam conflitos e problemas de lado e unem-se para testemunharem as palavras ditas por Neil Armstrong e transmitidas em todas as frequências: “é um pequeno passo para o Homem, mas um grande salto para a humanidade”.

Há 50 anos atrás o Homem estava a caminhar na Lua e agora?

Há 50 anos atrás, a capacidade computacional do System/360 da IBM que permitiu que o Homem chegasse em segurança à lua tinha o poder equivalente ao de uma simples calculadora. Já imaginaram onde conseguiríamos chegar com o poder de um telemóvel atual? Com aqueles octo-cores e hexa-cores e GPU’s dedicados?

Há 50 anos atrás, o Homem estava a caminhar na lua e nos últimos 40 este capítulo esteve encerrado e voltamo-nos para o nosso imaginário, esperançosamente que a odisseia voltasse em 2001 e depois em 2010, onde perdemos a capacidade de repetir a proeza feita em 1969.

Há 50 anos atrás, tivemos a NASA como pioneira, hoje temos a SpaceX. Musk relançou a corrida espacial, devolveu a toda uma nova geração o sonho de voltarmos à lua e desta vez nos aventurarmos “por mares nunca dantes navegados”.

Hoje é incrível acompanhar os avanços que a SpaceX tem feito nos últimos anos e como tanto foi feito num período de tempo tão curto. Desde as tentativas iniciais de aterrar um booster numa plataforma móvel no meio do oceano, ao inacreditável sincronismo de dois destes aterrarem ao mesmo tempo depois de largarem a sua carga a vários quilômetros de altitude. E quem pode esquecer o lançamento do Starman a bordo do seu Tesla, que abriu caminho para o último feito - o transporte de dois astronautas para a Estação Espacial Internacional.

Hoje, se colocarmos lado a lado as imagens de à 50 anos atrás do interior do vaivém (ou mesmo da cabine de um avião) vemos uma infinidade de botões, manípulos e ecrãs de baixa resolução com indicações que parecem ser de uma língua há muito esquecida. Se, agora, contrastarmos com o interior da cápsula Dragon vemos apenas dois ecrãs tácteis (sim, não é preciso tirar as luvas para interagir. Esta tecnologia dava jeito no Inverno) com imagens percetíveis de tudo o que está a acontecer. E claro, todo o processo, desde a descolagem até a acoplagem, é praticamente todo automático. Mal saíram da nossa atmosfera, Robert e Douglas tiveram direito a um agradável sono recuperador de 8 horas com a melhor vista possível - sobre o nosso planeta azul - que uma vez mais, numa altura de pandemia e caos, parou, olhou para o céu, uniu-se e sonhou.