Moeda Euro digital

Necessidade ou prioridade?

por Filipe Mendes

Sendo engenheiro de software à mais de 7 anos, devo ser o único que pouco ou nada percebe de criptomoedas. Talvez porque sempre esperei que ganhassem mais tracção e confiança no público em geral para além das típicas histórias de sucesso repentino ou desgraça inesperada. Para o banco central europeu, a Bitcoin não pode ser considerado moeda porque o seu valor é demasiado volátil, para além de que, não serve como forma de pagamento na grande maioria das transacções, o que significa que não passa de um mero activo especulativo.

Paralelamente, o BCE anunciou recentemente que estaria a considerar uma versão digital para o euro, centralizada e controlada pelo próprio. Uma moeda que seria guardada numa carteira digital segura, eficaz e inclusiva, que servisse de alternativa para aqueles que preferem não utilizar dinheiro no dia-a-dia, ou até para situações em que os serviços de pagamentos não estejam operacionais. tal como normalmente acontece após a ocorrência de desastres naturais. Por fim, que seja uma moeda idealizada com base nas características do mercado único e que, especialmente, seja tecnologia desenvolvida em território europeu.

E é exactamente aqui, a autonomia tecnológica europeia, a razão que mais força terá por trás de toda esta iniciativa.

Numa altura em que surgem cada vez mais países a dar um passo atrás face ao 5G da Huawei, bem como a eminência do lançamento da moeda digital chinesa e a dependência do mercado europeu face a tecnologias americanas, como a plataforma PayPal e os serviços Mastercard/Visa, faz com que a união europeia e o banco central europeu se tenham apercebido da necessidade de acelerar a sua autonomia tecnológica.

Esta iniciativa privilegiará a conveniência do cidadão europeu e a sua privacidade individual, na medida em que o BCE não terá interesse comercial nos dados dos seus utilizadores. Contudo, coloca algumas reticências naqueles que preferem menos intervenção governamental, com medo da vigilância estatal ou que simplesmente preferem a iniciativa privada em nome da competição. Outros consideram que existem temas mais prioritários, como a necessidade de intervenção no monopólio do sistema SIBS que recusa os pagamentos por cartões Revolut nas suas redes (multibanco) em Portugal.

De qualquer das formas, aguardemos até o final do próximo ano para mais informações de como este projecto se concretizará.